terça-feira, 22 de junho de 2010

Os antigos retratos de parede

Alberto Godoy
Os antigos retratos de parede
Não conseguem ficar longo tempo abstratos.
Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
Porque eles nunca se desumanizam de todo
Jamais te voltes pra trás de repente.
Não, não olhes agora!
O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim…
Sem fim e sem sentido…
Dessas que a gente inventava
enganar a solidão dos caminhos sem lua.

Mario Quintana (1906-1994)

domingo, 20 de junho de 2010

Reflexão



“O errado é errado mesmo que todos o façam; o correto é correto mesmo que ninguém o faça”.

Sathya Sai Baba
(23 novembro de 1926 - 24 abril de 2011)

sábado, 19 de junho de 2010

Luar póstumo

Numa noite de lua escreverei palavras,
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.

O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascerá de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados,
livre de pálpebras, e num país sem muros.

Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande... Ah, quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível!

Cecília Meireles (1901-1964)

Ensaio sobre a Cegueira

“Se podes olhar vê,
se podes ver, repara.
… se antes de cada ato nosso,
nos puséssemos prever todas as consequências dele,
a pensar nelas a sério,
primeiro as imediatas, depois as prováveis,
depois as possíveis, depois as imagináveis,
não chegaríamos sequer a mover-nos de onde
o primeiro pensamento nos tivesse feito parar”.

José Saramago
Ensaio sobre a cegueira

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Dentro da minha vida vou guardando o meu sonho

Dentro da minha vida vou guardando o meu sonho
em chuviscos sutis de amor e de veneno.

O abismo me fecunda e se desfaz o encanto,
com a Dor permaneço dolorido pensando.

(Era um canto dormido
em seda triste e branda,
adormeceu no estéril desencontro dos ventos
e a vida, estilhaçada como árvore deserta,
ficou.)

Oh! como doem, doem essas dores humildes.

Pablo Neruda

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Mensagem

“Se as portas da percepção
se abrissem,
tudo pareceria como é: infinito”.

William Blake (1757-1827)

Nossas vidas são como a respiração

Helen Allingham
“Nossas vidas são como a respiração,
como as folhas que crescem e caem.
Quando realmente entendermos
sobre as folhas que caem,
seremos capazes de varrer os caminhos
todos os dias e nos alegrar
com nossas vidas neste mundo mutável”.

Ajaan Chah (Tailândia, 1918-1992)

domingo, 13 de junho de 2010

Nasceu no meu jardim um pé de mato

Steve Henderson
Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoada de todo jeito:
tem do grosso, do fino,
de aprendiz e de mestre.
É pata, é asas, é boca, é bico, é grão de
poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.

Adélia Prado

sábado, 12 de junho de 2010

O Essencial do Tao

Um caminho pode ser um guia, mas não uma trilha definida.
Podem-se dar nomes, mas não rótulos fixos.
Não ser é chamado o princípio do céu e da terra;
Ser é chamado a mãe de todas as coisas.
Sempre desapaixonados, para ver as aparências
Sua origem é a mesma, mas tem nomes diferentes,
Ambos são considerados mistérios.
O mistério dos mistérios é o portal das maravilhas.

Thomas Cleary

Essa... a alegria que ele quer

Gustav Klimt
Deus nos dá pessoas e coisas,
para aprendermos a alegria...
Depois, retoma coisas e pessoas para ver
se já somos capazes da alegria sozinhos...
Essa é a alegria que ele quer.

João Guimarães Rosa

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O Poeta Beija Tudo

Alfred Gockel
O poeta beija tudo, graças a Deus...
E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade...
E diz assim: "É preciso saber olhar..."
E pode ser, em qualquer idade, ingênuo como as crianças,
entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos...
E levanta uma pedra escura e áspera
para mostrar uma flor que está por detrás...
E perde tempo (ganha tempo...) a namorar uma ovelha...
E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta,
uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu,
um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino,
um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso...
E acha que tudo é importante...
E pega no braço dos homens que estavam tristes e
vai passear com eles para o jardim...
E reparou que os homens estavam tristes...
E escreveu uns versos que começam desta maneira:

"O segredo é amar..."
Sebastião da Gama (1924-1952)

sábado, 5 de junho de 2010

Mensagem

Cathy Delanssay
“Cada um que faz a sua parte
e dissolve a sua quota de fascínio e ilusões
está aplainando o caminho para os que vêm a seguir.
Esse é o maior serviço que o discípulo pode prestar a Humanidade”.

Alice Bailey (1880-1949)

Mensagem

Maxfield Parrish
“A ocupação principal do homem é tornar-se
consciente do seu verdadeiro propósito na Vida;
todas as outras ocupações são secundárias
em relação a este interesse principal.”

Paul Brunton (1898-1981)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Furtei uma flor daquele jardim

Furtei uma flor daquele jardim.
O porteiro do edifício cochilava,
e eu furtei a flor.
Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água.
Logo senti que ela não estava feliz.
O copo destina-se a beber, e a flor não é para ser bebida.
Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia,
revelando melhor sua delicada composição.
Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.
Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la.
Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia.
Temi por sua vida.
Não adiantava restituí-la ao jardim.
Nem apelar para o médico de flores.
Eu a furtara, eu a via morrer.
Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui
depositá-la no jardim onde desabrochara.
O porteiro estava atento e repreendeu-me:
– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Há nos teus olhos escuros

Há nos teus olhos escuros
Tantas centelhas, que ao vê-las
Penso na treva e nos brilhos
Das noites cheias de estrelas...

Penso em cousas singulares,
Indagando entre delírios:
Por que é que os céus inda brilham?
Por que não se apaga Sírius?

Euclides da Cunha (1866-1909)