terça-feira, 2 de julho de 2013

Da Antipolítica ao AntiPeTismo

A antipolítica é um fenômeno viral. E globalizado. Na Itália ou Irlanda foi, em parte, impulsionado pela derrocada econômica. No Brasil, o cenário foi outro: crescimento econômico e redução da desigualdade social. Há elementos singulares que necessitam ser perscrutadas por aqui. E isso aponta para o quão desafiado é a produção de uma explicação minimamente razoável a respeito da expansão da antipolítica entre nós?
Mas não nos desesperemos! São muitas as trilhas e atalhos que levam ao terreno da explicação substantiva sobre a expansão da antipolítica nestas plagas. Alguns desses caminhos analíticos ainda são difíceis de serem trilhados, dado que estamos, neste exato momento, imersos em seu redemoinho. Sigamos algumas dessas sendas analíticas, então.
Antes de seguir, deixem-me fazer uma demarcação: a atual onda antipolítica não pode e não deve (porque isso significaria jogar a banheira da água suja com a criança) com fascismo. A reação de parte da esquerda, incluídos aí tanto a extrema-esquerda e partes do PT, de partir para o ataque genérico contra os antipartidos (apenas alguns dos agentes da antipolítica) foi, nesse sentido, um equívoco grandioso.
1. A ANTIPOLÍTICA E A GLOBALIZAÇÃO: O OCASO DO ESTADO
O declínio do Estado é o anverso da Globalização. A vida econômica, cada vez mais condicionada ao jogo do mercado financeiro, escapa como areia da mão dos mecanismos de controle e das regulações estatais. As pessoas não precisam ter lido o excepcional livro do Professor Martin Von Creveld, ASCENSÃO E DECLÍNIO DO ESTADO, para captarem os desdobramentos dessa realidade. Para a sua vida cotidiano e para a vida política. A consequência? Desinteresse e ignorância em relação às questões relacionadas ao Estado. E essa é uma dimensão radicalizada em uma sociedade, como a nossa, na qual a afirmação da cidadania foi trilhada via aumento do consumo, como ocorreu nos últimos dez anos.
2. A ANTIPOLÍTICA, A CORRUPÇÃO E A BOA CONSCIÊNCIA
A antipolítica alimenta-se da insustentável generalização de que todos os políticos são corruptos. Não apenas corruptos! Eles (os políticos) viveriam de costas para os interesses das pessoas. Há os saudosos da ditadura no meio, não esqueçamos. Mas muita gente que brandeia a antipolítica condena todos os políticos e os identifica como corruptos por um motivo bem egoísta: com essa atitude identificam a fonte de todo mal no outro (ou em outros) e alicerçam a percepção de si mesmos como moralmente superiores. Os políticos são corruptos, mas eu sou legal e honesto, essa a mensagem.
3. A ANTIPOLÍTICA É A REJEIÇÃO DA RACIONALIDADE TÉCNICA E DA ÉTICA DA RESPONSABILIDADE
A antipolítica alimenta-se da dificuldade dos não especialistas em entender as tecnicalidades da ação do Estado em suas diversas esferas. Os mais “letrados” (detentores de diplomas universitários, que, por isso, se sentem culturalmente superiores aos “analfabetos”, muito embora tenham seu universo de leitura restrito aos livros de autoajuda) falam de “falta de vontade política”. Os menos letrados (e mais despreocupados com as performances) esbravejam contra a “falta de vergonha” e a “safadeza” dos políticos.
4. A ANTIPOLÍTICA TEM OS SEUS SURFISTAS
Tem sempre alguém querendo pegar uma onda. E se essa for midiática, não tem jeito. Alguns minutos de audiência, para não poucos, justificam qualquer chafurdada no obscurantismo. Os surfistas de direita não são poucos. No Brasil, como o PT é a melhor expressão institucional de um partido político, eles intuíram (e bem) que qualquer lasquinha que se tire na política, na racionalidade política, arranha, de algum modo, o PT e a forma como este fez política nos últimos dez anos. Então, atice-se a antipolítica. Mas tem também gente que se acha intelectual e eticamente superior surfando nessa onda. Estes procuram “vocalizar” os gritos das ruas. Sua retórica alinha-se superficialmente com o vitalismo. Vão da desconstrução teórica para a defesa da destruição nada metafórica dos símbolos do sistema capitalista e, pasmem!, da democracia. Quedam-se ante o palavrório dos anarquistas de playground e verbalizam consignas contra o “sistema podre”. Teriam alguma graça não tivessem já ultrapassada a barreira da idade da Razão…
5. A ANTIPOLÍTICA PODE BENEFICIAR A EXTREMA-ESQUERDA, MAS SÓ NO CURTO PRAZO…
A antipolítica aboletou-se na produção da extrema-esquerda. Percebeu o potencial e o incorporou, dando nova direção. Mas a extrema-esquerda, mesmo “alijada do processo”, não se deu por vencida e construiu o delírio de que iria “disputar as massas”. As agressões físicas sofridas por alguns de seus militantes indicam que a antipolítica não tem complacência e nem muitas veleidades democráticas. Pior do que isso, em meio à regressão, alguns dos seus intelectuais veem nas multidões nas ruas os sinais de uma democracia direta em construção.
6. NO BRASIL A ANTIPOLÍTICA É, ANTES DE TUDO, ANTIPETISTA
É estranho que o pessoal do PT não tenha se dado ao trabalho de monitorar os chamamentos para as manifestações nas redes sociais. Tivessem feito isso não teriam produzido a patacoada da “onda vermelha” (copyright de Ruy Falcão). Por quê? Ora, porque não a rejeição, mas o ódio puro e simples ao PT é o aspecto mais sobressalente dessas mensagens.
Edmilson Lopes Júnior.
Professor de Sociologia do Departamento de Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte

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