sexta-feira, 10 de maio de 2013

A viagem de Rudyard Kipling ao Brasil
Rudyard Kipling (1865-1936)
Em 1889, quando deixa a Índia para ir trabalhar como correspondente de um jornal importante daquele país, The Pioneer.
Nessa época ele visita Burma (atual Myanmar), Singapura, Hong Kong, o Cantão(Guangzhou), o Japão e os Estados Unidos.
Em 1891 vai para a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. Nesse tempo começa a escrever romances e poesias e em 1894 publica The Jungle Book, traduzido no Brasil como O Livro da Selva. O personagem importante dessa obra: Mowgli. Virou desenho da Disney em 1967. Foi um sucesso, o tal menino-lobo da floresta.
Em 1907 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Duas décadas depois, mesmo com problemas sérios de saúde, toma um navio e viaja por dois longos anos para a região dos Trópicos. Chega ao Brasil em 1927 e fica por aqui um período de cinco semanas, o suficiente para escrever um relato de viagem cheio de informações pitorescas sobre o nosso país.
Além do Livro da Selva (dois volumes), leitura popular ainda hoje em muitos países.
E embora respeitado, laureado com um Nobel , Rudyard Kipling foi muito criticado por conta de suas convicções no tocante à posição favorável que adotou em relação ao imperialismo britânico, o qual foi considerado um porta-voz.
Mas o que Kipling tem prá dizer sobre o Brasil lá do final dos anos vinte; que será que aconteceu naqueles dias?
Rudyard Kipling - As Crônicas do Brasil
Ele é um cronista afável da vida brasileira (o racismo do autor, conhecido por sua defesa apaixonada do colonialismo britânico, está relativamente mitigado aqui). Entre os registros mais curiosos, inclui-se sua participação no Carnaval carioca, em que o ganhador do Nobel de 1907 se misturou aos foliões nas guerras de lança-perfume. A edição das crônicas é bilíngue.
São sete os capítulos que compõem as crônicas e cada um deles é precedido de poemas curtos. Curtos, e me perdoe o Rudyard, muito chatinhos. Não consegui gostar de nenhum, mas vamos dar um crédito ao colega, pode ser que tenham perdido o encanto ao serem traduzidos, vai ver foi isso.
E o livro começa assim:
Certa vez, em um sonho infantil, perambulei até o fim do mundo e encontrei coisas muito distintas de tudo o que aprendera; como apenas as crianças e os povos antigos querem que sejam. Agora o sonho se tornou realidade.
O autor encontra-se em um navio a vapor sul-americano, tendo partido do cais de Southampton e desde a saída, diz ele, as perguntas começam a ser respondidas em português e espanhol, línguas francas das conversas dali em diante.
A ocupação de Rudyard, naquela viagem, era a busca pela Beleza, que ele grafa assim mesmo, com letra maiúscula. Não lhe interessava a arquitetura e as construções locais, seu lance foi curtir as belezas naturais - coisa que um país como o Brasil tem de sobra.
A primeira terra avistada: Recife. “Era Pernambuco abrindo outro dia precioso”, relata. E depois prossegue:
(...) barcos atracados bordo-a-bordo, onde homens vendiam mangas rosas e douradas, periquitos verdes, cada mancha e clarão de cores definidas como um trabalho esmaltado (...) Por trás havia a praia, com palmeiras e bananas legítimas, praticamente imutáveis, e indícios de vilarejos em um promontório arborizado que avançava pelo mar turquesa.
Não se demora em Recife e logo o navio parte em direção à Bahia, “a Cidade-Mãe – o coração de toda a energia ardente do nascimento do Brasil.” Sobre a Bahia, que parece o haver encantado, diz o seguinte:
Aqui se encontram pratos e iguarias do antigo regime – maravilhosas confecções, na maioria derivadas do “azeite de dendê”; frutas e bebidas com suco de frutas; cores exuberantes, verdes, vermelhos, amarelos, como os da touca de uma negra; um brilho e resplendor que dominam, mas não ofendem; e o disciplinado revezamento das brisas da terra e do mar.
E o viajante chega ao Rio de Janeiro às vésperas do carnaval. O autor se surpreende com as pessoas em Copacabana, onde carros passavam com gente fantasiada, alegre e cantante. “Isso é porque o Carnaval é daqui a uma semana. Eles estão se preparando para isso”, observa, talvez com um misto de surpresa e leve entusiasmo.
No Rio tudo é novidade para o viajante inglês; o ritmo da vida que se desenrola logo cedo em frente ao Copacabana Palace, “um hotel de mármore de frente para as águas serenas”; um carioca pilotando uma motocicleta em trajes de banho; a realização de um sonho de infância, tão simples que emociona, que era o de poder ver, em seu habitat, a flor da vitória-régia. Seu desejo é realizado no parágrafo em que se propõe a descrever as maravilhas do Jardim Botânico.
Tão lindo que até ficamos com vontade de pegar o primeiro voo em direção ao Rio, o que nunca é uma má ideia.
Do Rio de Janeiro Kipling segue para Sampa. Olha só como ele começa descrevendo a cidade, lembrando que estamos viajando no ano de 1927: “uma cidadezinha, a trezentos quilômetros da costa, com novecentas mil pessoas, chamada São Paulo, onde, entre outras coisas, existe uma fábrica poderosa e eficiente relatada como ‘vale muito a pena ver’.”
A chegada a São Paulo se dá pelo porto de Santos, “sob o olhar atrevido do céu da África Ocidental”, tal como se lê no texto. No primeiro capítulo, dos quatro dedicados a Sampa, Kipling gasta muitas linhas descrevendo o sistema de distribuição de energia da cidade.
O capítulo seguinte é bem mais interessante: Visita a uma moderna fazenda de serpentes. Bom, se você é paulistano, já sabe: o autor refere-se ao Instituto Butantã. Se você nunca visitou o local, depois de ler as impressões de Kipling aposto que ficaria com vontade de dar uma passadinha por lá. E diz o Kipling que as tarântulas “são visivelmente uma criação do Demônio”.
No capítulo seguinte ao da passagem pelo Butantã, vamos ler sobre a São Paulo do Pós-Guerra, com notas sobre uma Fazenda de Café. E o Rudy gostou do que viu e do que provou: “Desse café, basta dizer que descobri nunca ter provado café antes. Pode-se beber a substância mágica em grandes xícaras, cada uma melhor que a anterior, e ter um sono abençoado mais tarde.”
Outra passagem relevante, sob um ponto de vista histórico, é o capítulo em que Rudyard escreve sobre a construção da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, a antiga San Paulo (Brazilian) Railway Company, companhia formada pelo Barão de Mauá com a participação de investidores ingleses. Amantes dos trilhos irão gostar, já que o autor não economizou nos detalhes.
Particularmente, o que mais me surpreendeu nessa narrativa de viagem foi a maneira como Rudyard Kipling conseguiu captar o ethos brasileiro, o que pode ser verificado em várias passagens da obra. Uma das mais divertidas, e que você logo identificará, diz o seguinte:

Os brasileiros que encontrei eram interessados e completamente a par dos assuntos externos, mas estes não compunham seu mundo essencial. O Deus deles – eles caçoavam – era brasileiro. Ele dava a eles tudo o que queriam e um pouco mais. Por exemplo, uma vez quando a colheita do café excedeu os limites. Ele enviou uma geada no momento certo, que podou um quarto e equilibrou confortavelmente o mercado.

O relato das cinco semanas de viagem de Kipling pelo Brasil, ou pelos Brasis, como ele sabiamente se refere ao país em alguns momentos, termina cheio de poesia e boas lembranças daquilo que viu e viveu, não deixando dúvidas de que a aventura por estas paragens lhe encantou os olhos e o coração. Bom saber que em algum lugar do passado nossa terra foi tão bem retratada por viajantes de alma aberta e sabedoria privilegiada como Rudyard Kipling.
Enquanto o navio de regresso se afastava da baía, as lembranças das últimas e magníficas semanas começaram a selecionar a si mesmas. Trilhos, automóveis, fábricas, hotéis suntuosos e casas luxuosas em que proporcionaram tantas alegrias e começaram a desvanecer.
Os rostos dos administradores decididos e urbanos tornaram-se mais claros; como também a respiração suspensa nos limites da floresta, e o consagrado crepúsculo preenchido com solenes vaga-lumes ondulantes. Como também um imenso bramido de cachoeiras ouvido em uma noite quente e sufocante.
As encostas em que nosso vapor seguia afastaram-se de nós até nos aproximarmos do extremo sul daquelas praias de areias ofuscantes “muito parecidas com roupas de linho postas para alvejar” as quais, os pilotos dos velhos tempos avisavam, demarcavam “onde tu podes ter certeza de ser levado até a Bahia”.
As crônicas do Brasil (Brazilian Sketches).
Rudyard Kipling.
Tradução Luciana Salgado. São Paulo: Landmark, 2006.

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