terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Cambuí

Um tesouro histórico no Cambui
Praça XV de Novembro 62, no Cambuí
Uma reforma acabou danificando parte da parede da casa vizinha e trouxe à mostra um tesouro para a história de Campinas: uma casa, em taipa, que pode ser a mais antiga ainda existente na cidade, remanescente da época em que o núcleo urbano estava se formando. “É uma preciosidade de valor histórico imenso”, disse a historiadora Daisy Ribeiro, da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC). A casa, construída na Praça XV de Novembro 62, no Cambuí, teve seu tombamento, como patrimônio da cidade, publicado ontem no Diário Oficial, e pode estar tirando de outro imóvel, na esquina das ruas General Osório com Antônio Cesarino, o status de mais antigo da área urbana.
Segundo a historiadora, ao que tudo indica, o imóvel foi construído entre o final do século 18 e início do 19, período em que foi erguida a Capela de Santa Cruz, na mesma rua, no local onde existiu um dos três campinhos (ou campinas), a partir dos quais o núcleo urbano de Campinas se formou. Os registros indicam que a Capela de Santa Cruz foi construída em 1789, ou seja, 15 anos após a fundação de Campinas. A capela é a mais antiga de Campinas, sede da primeira paróquia da cidade, e foi erguida por escravos no século 18. Ela é sobrevivente de uma época em que as paredes, em taipa de pilão, eram construídas com saibro, argila, cacos de telha, crina de animais e sangue. Daisy Ribeiro acredita que a casa tenha sido erguida nesse período.
O que mostra a antiguidade do imóvel tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc) é a taipa. As paredes da fachada, laterais e uma central são em taipa, que só apareceram por causa do acidente durante a obra do prédio vizinho. O dono da casa, que está vendendo o imóvel, acionou a CSPC, que encontrou a taipa, revestida por tijolos (o chamado encamisamento), e por isso sua constituição era desconhecida dos historiadores e até do proprietário.
“Era muito difícil encontrar taipeiros em Campinas e até anúncios em jornais foram publicados chamando esses especialistas para poder construir a Catedral. Então, ter uma casa assim nos leva a acreditar que ela é muito antiga mesmo, possivelmente até já existisse quando a Catedral estava sendo construída”, afirmou. A construção da Catedral teve início em 1807.
Muita pesquisa ainda será necessária para poder conhecer essa casa. Os conselheiros do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc) e os técnicos da CSPC suspeitam que ela pode ter sido uma venda, porque há indícios de que as duas janelas que ladeiam a porta no centro da fachada, podem também ter sido portas. “É uma casa pequena, com um quintal grande e possivelmente tinha uso habitacional e comercial simultâneos”, disse a historiadora.
Os técnicos querem fazer prospecção no piso, porque embora seja de madeira, não é remanescente do período da construção. O piso original, acredita a pesquisadora, deve estar rebaixado. Assim, a casa se tornou patrimônio de Campinas não apenas por sua técnica construtiva, a taipa de pilão, mas também pelo significado histórico que ela traz.
O lugar onde está situada era o terceiro campinho das três clareiras na mata. Os outros campinhos ficavam nas proximidades do atual estádio do Guarani e o outro, no Largo do Carmo, no Centro.
O Largo Santa Cruz ganhou fama por ter sido palco de marcantes episódios ocorridos no século 19, pois foi o local de passagem onde agrupavam-se ranchos e pousos de tropeiros que ali paravam por alguns dias, a fim de se refazerem, antes de seguir viagem para o sertão de Goiás e Mato Grosso, em busca de pedras preciosas. O local também ficou marcado, entre outras coisas, por ter sido o local da forca por volta de 1835.
Ali o escravo Elesbão, acusado de matar um fazendeiro, foi enforcado jurando inocência. Era também nesse largo onde os escravos, comprados pelos fazendeiros, ficavam em quarentena, antes de serem levados às fazendas.

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