sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A Rede Vespa:
espionagem e contraterrorismo à moda cubana.
Estados Unidos e Cuba mantêm uma conturbada relação política e diplomática desde janeiro de 1959, quando um grupo de revolucionários (comandados pelos irmãos Fidel e Raúl Castro, Ernesto “Che” Guevara e Camilo Cienfuegos) derrubou a ditadura de Fulgencio Batista. Ao chegarem ao poder, aqueles jovens da Sierra Maestra (região montanhosa de Cuba, onde os revolucionários montaram acampamento) transformaram a ilha caribenha em uma integrante ocidental do então “bloco comunista”. Isso, a apenas 160 quilômetros da maior nação capitalista do mundo, os Estados Unidos.
Essa tensa relação é revelado através da a história da Rede Vespa, uma célula espiã cubana infiltrada em solo norte-americano, cujo objetivo era defender a ilha socialista de constantes ataques terroristas desferidos por grupos de exilados anticastristas, com base na Flórida.
Desde 1962, os Estados Unidos fazem um embargo econômico e comercial a Cuba, que foi ampliado ao longo dos anos. Desde o ano 2000, o embargo prevê a permissão de venda à vista de gêneros alimentícios e o envio de alguma ajuda humanitária à ilha de Fidel. É o embargo econômico mais duradouro da história moderna, ponto de tensão entre os EUA e alguns de seus aliados mais tradicionais, que consideram a medida abusiva (a própria Organização das Nações Unidas já condenou o embargo).
Por conta da medida econômica adotada pelos EUA, Cuba sobreviveu quase que exclusivamente do auxílio de sua principal protetora e aliada, a União Soviética, responsável pela compra de praticamente toda a produção cubana de açúcar, tabaco, rum e níquel. Com o fim da URSS, em 1991, a fonte de auxílio se esgotou, fazendo com que Fidel e seus camaradas se vissem obrigados a buscar fontes alternativas de recursos. Com 1,2 mil quilômetros de belas praias, Cuba escancarou suas portas para a indústria turística internacional, que despejou sobre a ilha bilhões de dólares em investimentos na rede hoteleira, passando a atrair um crescente número de turistas estrangeiros.
A Flórida foi, desde os primeiros tempos da revolução, o destino da grande maioria dos que deixaram Cuba. Ponto continental mais próximo à ilha de Fidel, o estado do sul dos EUA abrigou antigos aliados do governo Fulgencio Batista, empresários cujos bens foram expropriados, artistas e homossexuais perseguidos pelo regime.

O Terrorismo anticastrista e a Rede Vespa
Rede Vespa, grupo de espionagem cubano que atuou no estado norte-americano da Flórida entre os anos de 1990 e 1998 com a missão de combater grupos anticastristas radicais, responsáveis por ataques terroristas em Cuba.
A Rede Vespa era composta por 14 agentes cubanos (12 homens e duas mulheres). Para não despertar suspeitas, as “vespas” foram chegando aos poucos nos Estados Unidos (o primeiro agente foi “plantado” em 1990 e o último penetrou apenas em 1998). Essas pessoas tinham que se passar por desertores ou ainda utilizar documentação falsa.
A vida dos membros da Rede Vespa estava muito longe da de um “007”. Cada agente recebia apenas mil dólares mensais do governo cubano e, por isso, eles foram obrigados a procurar outras fontes de renda (um deles chegou a trabalhar como professor de salsa). Isso fez com que os agentes se infiltrassem, com certa facilidade, na comunidade de exilados cubanos na Flórida.
mesmo com dificuldades financeiras, nos primeiros 18 meses de atividade as “vespas” cubanas conseguiram evitar pelo menos 20 atentados e garantiram a prisão de 30 terroristas em solo cubano. Os agentes conseguiram, ainda, debelar planos de assassinato do líder Fidel Castro. As informações obtidas pelos agentes possibilitaram também que, em 1996, caças da força aérea cubana derrubassem dois pequenos aviões (pertencentes à organização Irmãos para o Resgate) que haviam invadido o espaço aéreo cubano para atirar panfletos contra o regime socialista.
a Rede Vespa chegou ao fim com requintes “hollywoodianos”. Mesmo com todo cuidado, as “vespas” foram rastreadas pelo FBI que, em uma megaoperação envolvendo cerca de 200 homens, prendeu 10 agentes secretos cubanos em setembro de 1998. Dos presos na operação, metade entrou em acordo com as autoridades americanas, sendo contemplados em programas de delação premiada. O restante foi punido com penas extremamente rigorosas e estão presos até hoje.
Gerardo Hernández (considerado o chefe da Rede de agentes), René González, Ramón Labañino, Fernando González e Antonio Guerrero, foram condenados em 2001 a penas que variam de 15 anos a prisão perpétua, por espionagem, conspiração, entre outras acusações. A Rede Vespa é pouco conhecida, o destino dos cinco agentes presos nos EUA é ainda menos lembrado. Mesmo assim, a situação do grupo conhecido como “os cinco de Cuba” é uma causa nacional na ilha de Fidel, onde os ex-espiões são tidos como verdadeiros heróis. Não obstante, entidades como a Anistia Internacional e um grupo de ganhadores do Prêmio Nobel têm reverberado as cobranças apresentadas por Havana, exigindo que as autoridades americanas libertem os ex-agentes.
No dia 7 de outubro de 2011, depois de 13 anos, foi libertado René González, um dos cinco cubanos presos políticos nos Estados Unidos sob acusação de espionagem.
González deixou a prisão federal de Marianna, no norte da Flórida. Ele é o primeiro integrante do grupo, conhecido em Cuba como os "cinco heróis", a ser libertado.
González deverá, no entanto, permanecer nos Estados Unidos por três anos, sob um regime de liberdade supervisionada. O cubano, que tem nacionalidade dupla, pois nasceu em Chicago, teve seu pedido de retorno à ilha negado em fevereiro pela juíza Joan Lenard.
Na saída da prisão, González foi recepcionado por suas duas filhas, Irma e Ivette, seu irmão Roberto, seu pai, Cándido, e seu advogado Philip Horowitz. Sua mãe, Irma Sehweret e sua esposa, Olga Salanueva, entretanto, não puderam estar presentes, pois o governo estadunidense não lhes deu autorização para entrar no país.
As autoridades cubanas admitiram que os "cinco heróis" trabalhavam como agentes, mas afirmaram que sua missão era impedir atos terroristas contra o então presidente Fidel Castro e que não ameaçavam a segurança dos Estados Unidos.

Fernando Morais
lança livro sobre os cinco patriotas de Cuba

Dedicado aos cinco cubanos presos nos Estados Unidos, o livro "Os últimos soldados da Guerra Fria", do escritor brasileiro Fernando Morais, foi lançado no dia 23 de agosto em São Paulo, pela Editora Companhia das Letras e conta a história dos agentes secretos infiltrados por Cuba em organizações de extrema direita dos Estados Unidos.

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